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ARTIGOS

01/07/2026

A coluna vertebral do SUS: como a atenção primária evita o colapso operacional e financeiro da Saúde

Imagem/Arquivo Pessoal
Detalhes Notícia

Imagine um sistema de saúde desenhado como uma pirâmide. Na base, está o atendimento mais próximo do cidadão, feito para resolver a grande maioria dos problemas antes que eles cresçam. No topo, estão as UTIs, as cirurgias de alta complexidade e os hospitais de grande porte. Quando a base dessa pirâmide racha, todo o peso desaba sobre o topo. É exatamente esse o cenário que enfrentamos quando a Atenção Primária à Saúde (APS) — ou Atenção Básica — deixa de funcionar como deveria.
A APS é, por definição, a principal "porta de entrada" e o centro de coordenação do Sistema Único de Saúde (SUS). O seu foco não é a urgência, mas sim a prevenção, a promoção da saúde e o acompanhamento contínuo da população. Quando estruturada com equipes multidisciplinares (médicos, enfermeiros, técnicos, agentes comunitários, dentistas e psicólogos), ela tem capacidade técnica para resolver até 85% a 90% das demandas médicas cotidianas.
Porém, quando a Atenção Primária falha por falta de investimentos, infraestrutura ou gestão de pessoas, o impacto operacional e financeiro na rede pública é imediato e devastador.

O Impacto Operacional: O Gargalo dos Prontos-Socorros
Do ponto de vista operacional, a APS funciona como um "filtro ordenador". Uma de suas funções mais nobres é o manejo de doenças crônicas não transmissíveis, como a hipertensão e a diabetes. Pacientes com essas condições precisam de monitoramento constante, ajuste de medicações e exames de rotina.
Quando o posto de saúde local falha em acolher esse paciente — seja por falta de consultas, insumos ou falhas na cobertura —, a doença descompensa. O resultado prático é a superlotação crônica das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e dos prontos-socorros hospitalares.
O mau serviço prestado na base inverte a lógica do sistema: casos de baixa complexidade (como uma renovação de receita, uma infecção urinária leve ou uma crise hipertensiva inicial) passam a disputar espaço com emergências reais, como infartos e traumas de trânsito. Isso gera um efeito cascata de atrasos, exaustão das equipes de saúde e deterioração da qualidade do atendimento geral.

O Impacto Financeiro: A Conta Alta da Linha de Cuidado Tardia
Financeiramente, a negligência na Atenção Primária representa uma escolha econômica desastrosa para os cofres públicos. Na gestão pública da saúde, prevenir é exponencialmente mais barato do que remediar. Um paciente hipertenso bem acompanhado na Unidade Básica de Saúde (UBS) consome poucos recursos em consultas e medicamentos de baixo custo. Contudo, se esse mesmo paciente ficar desassistido e sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC), o custo de sua internação em UTI, procedimentos de alta complexidade e posterior reabilitação física custará ao Estado milhares de vezes mais.
Além disso, a falta de resolutividade na base infla artificialmente a demanda por consultas com especialistas e exames de alta tecnologia. Sem critérios claros de triagem e coordenação do fluxo pela APS, as filas do sistema de regulação crescem indefinidamente, desperdiçando recursos públicos em procedimentos que poderiam ter sido evitados na origem.
O Diagnóstico da Gestão: A eficiência financeira de uma rede de saúde não se mede pela quantidade de leitos de UTI que ela abre, mas sim pela quantidade de internações que ela consegue evitar por meio de uma Atenção Primária forte e resolutiva.

Conclusão
Fortalecer a Atenção Primária não é apenas uma agenda humanitária ou de cumprimento de preceitos constitucionais; trata-se de uma estratégia de sobrevivência econômica e operacional para a saúde pública.
Garantir que a primeira porta de entrada esteja sempre aberta, equipada e resolutiva é o único caminho viável para reduzir o sofrimento da população nas filas, otimizar a aplicação do dinheiro público e garantir a sustentabilidade do SUS a longo prazo. Um mau serviço na base não é um problema isolado — é o início do colapso de toda a estrutura de saúde.

(*) Pablo Ambrósio Ianela é Secretário Municipal de Saúde de Penápolis

Pablo Ambrósio Ianela (*)



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