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31/01/2026
Davos e a disputa pela narrativa do futuro: Trump, Macron e Mark Carney
O Fórum Econômico Mundial, realizado anualmente em Davos, consolidou-se como o principal palco simbólico da governança econômica global. Mais do que um espaço de consensos, Davos tornou-se uma arena de disputa narrativa, na qual líderes políticos e econômicos apresentam visões concorrentes sobre crescimento, regulação, sustentabilidade e o papel do Estado. Os discursos de Donald Trump, Emmanuel Macron e Mark Carney ilustram com clareza essa tensão estrutural.
Trump utiliza Davos de forma instrumental. Seu discurso, marcadamente pragmático, confronta a lógica tradicional do fórum, historicamente associado ao globalismo econômico. Ao enfatizar soberania nacional, desregulamentação seletiva, redução de impostos e priorização da indústria doméstica, Trump apresenta uma crítica direta às elites transnacionais ali reunidas. Do ponto de vista econômico, sua narrativa rejeita a ideia de coordenação global ampla e privilegia resultados mensuráveis de curto prazo, ainda que isso implique tensionar acordos multilaterais. Juridicamente, trata-se de uma visão que relativiza compromissos internacionais em favor da discricionariedade estatal.
Macron, em sentido oposto, procura reafirmar Davos como espaço legítimo de construção coletiva. Seu discurso defende uma economia de mercado regulada, com forte presença institucional, políticas industriais coordenadas e compromisso com transição energética e coesão social. Para o presidente francês, o crescimento econômico dissociado de estabilidade social e ambiental é insustentável. Sob a ótica jurídica, Macron reforça a centralidade das regras, dos acordos multilaterais e da previsibilidade normativa como fundamentos da confiança econômica. A União Europeia, nesse contexto, é apresentada como modelo de equilíbrio entre mercado, Estado e proteção social.
Mark Carney ocupa uma posição distinta, porém estratégica. Como economista e formulador de políticas, seu discurso desloca o foco do embate político para a arquitetura financeira do futuro. Carney enfatiza riscos sistêmicos, especialmente os relacionados às mudanças climáticas, à instabilidade financeira e à falta de métricas adequadas para precificação de riscos de longo prazo. Sua defesa de uma integração mais profunda entre sustentabilidade, finanças e governança corporativa não é ideológica, mas técnica. Do ponto de vista econômico, propõe a internalização de externalidades; juridicamente, sugere uma evolução regulatória capaz de alinhar incentivos privados a objetivos públicos.
A coexistência dessas três vozes em Davos evidencia a fragmentação da ordem econômica global. Não há mais um consenso dominante. Há projetos concorrentes: o nacional-desenvolvimentismo pragmático de Trump, o multilateralismo regulado de Macron e o reformismo técnico-financeiro de Carney. Cada um responde a uma lógica distinta de poder, legitimidade e risco.
Em síntese, Davos deixou de ser apenas um fórum de diálogo e tornou-se um termômetro das tensões do capitalismo contemporâneo. Para advogados e economistas, a leitura desses discursos é fundamental: ela revela não apenas intenções políticas, mas os contornos jurídicos e econômicos do mundo que está sendo disputado. O futuro não será definido por um único modelo, mas pela fricção permanente entre essas visões.
(*) Arthur Bezerra de Souza Junior é Advogado, Economista e Cientista Político. Doutor em Direito Político e Econômico pelo Mackenzie com estágios de Pós Doutorado. Atualmente mora em Araçatuba/SP
Arthur Bezerra (*)
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