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21/10/2026

Civilidade também se aprende na fila

Imagem/Arquivo Pessoal
Detalhes Notícia

Hoje, ao levar meu filho a um encontro em uma chácara do colégio onde estuda, presenciei uma situação que merece reflexão. O local, naturalmente, apresenta limitações de trânsito e mobilidade, com gargalos que dificultam a circulação de veículos. É uma condição que exige paciência, compreensão e, acima de tudo, respeito ao próximo.
O que deveria ser apenas um momento de chegada e despedida das crianças acabou revelando um problema muito maior do que qualquer dificuldade viária: a falta de civilidade.
Vi pais furando filas, trafegando pela contramão, atravessando à frente de outros veículos e realizando manobras perigosas, justamente em um ambiente onde há crianças e famílias circulando. Em vez de contribuir para a organização de uma situação já difícil, alguns optaram por agravar o problema, como se a própria pressa justificasse colocar em risco a segurança alheia.
É preocupante perceber como, em determinadas situações, o interesse individual parece se sobrepor completamente ao bem coletivo. Há quem se comporte como se o tempo de todos os outros valesse menos, como se as regras fossem destinadas apenas aos demais e como se a urgência pessoal concedesse o direito de ignorar qualquer limite.
Vivemos tempos em que muitos parecem se considerar donos do universo. O egoísmo se disfarça de esperteza, a falta de respeito é confundida com agilidade e a imprudência acaba sendo justificada pela pressa. Mas chegar alguns minutos antes não pode valer mais do que a segurança de uma criança.
A vida em sociedade exige uma compreensão elementar: não somos donos das ruas, não somos donos do tempo alheio e, sobretudo, não somos donos da vida de ninguém. Cada pessoa que está naquela fila tem compromissos, preocupações e alguém esperando por ela. Ninguém possui privilégios naturais para passar à frente dos outros, muito menos quando essa atitude coloca vidas em risco.
Não se trata de ignorar as dificuldades estruturais do local. É evidente que problemas de mobilidade precisam ser avaliados e, quando possível, solucionados. Entretanto, nenhuma melhoria viária será suficiente se não houver também uma mudança de comportamento. Infraestrutura organiza o trânsito; civilidade organiza a convivência.
Talvez a maior contradição esteja justamente no fato de que tudo isso acontece em um ambiente escolar, onde esperamos que nossas crianças aprendam valores como respeito, responsabilidade, empatia e solidariedade. Mas educar não é apenas matricular os filhos em uma boa escola, cobrar-lhes boas notas ou ensinar-lhes o que está escrito nos livros. Educar é também oferecer exemplos, especialmente quando ninguém está nos avaliando.
Que lição transmitimos às nossas crianças quando furamos uma fila? O que ensinamos quando desrespeitamos as regras para obter uma vantagem individual? E que sociedade estamos construindo quando a nossa própria conveniência se torna mais importante do que a segurança do próximo?
A civilidade não se manifesta apenas nos grandes gestos. Ela aparece nas pequenas escolhas cotidianas: esperar a sua vez, respeitar uma fila, ceder a passagem, reconhecer os limites e compreender que a vida coletiva exige concessões individuais.
Precisamos recuperar a noção de que viver em sociedade significa reconhecer a existência do outro. Não basta exigir direitos; é necessário assumir responsabilidades. Não basta cobrar respeito; é preciso praticá-lo. E não basta desejar um mundo melhor para nossos filhos se não estivermos dispostos a construir esse mundo por meio de nossas próprias atitudes.
Hoje, ao levar meu filho àquele encontro, voltei para casa com uma reflexão que vai muito além do trânsito: a sociedade não precisa apenas de ruas melhores, mas de pessoas melhores na maneira de conviver.
Afinal, a pressa pode até nos fazer chegar mais rápido a algum lugar. Mas é a civilidade que nos permite chegar lá sem atropelar os direitos, a dignidade e, sobretudo, a vida dos outros.

(*) Arthur Bezerra de Souza Junior é Advogado, Economista e Cientista Político. Doutor em Direito Político e Econômico pelo Mackenzie com estágios de Pós Doutorado.

 

Arthur Bezerra de Souza Junior (*)



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