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ARTIGOS

13/09/2026

Quando o dinheiro vira violência

Imagens/Arquivo Pessoal
Detalhes Notícia

“Ele fica com o meu cartão.”
“Meu salário cai na conta, mas é ele quem decide como o dinheiro será gasto.”
“O carro está no nome dele. A casa também.”
“Quando brigamos, ele ameaça me deixar sem nada.”
Frases assim podem aparecer no meio de uma conversa como se fossem detalhes da vida de um casal. Às vezes, vêm acompanhadas de uma justificativa: “Ele sempre cuidou do dinheiro lá de casa”.
Pois é.
Nem toda violência deixa hematomas.
Algumas deixam a mulher sem dinheiro, sem documentos, sem patrimônio e, principalmente, sem liberdade para decidir a própria vida.
Estamos falando da violência patrimonial.
A Lei Maria da Penha não protege a mulher apenas contra agressões físicas. A legislação também reconhece como forma de violência doméstica e familiar condutas relacionadas à retenção, subtração ou destruição de objetos, documentos pessoais, bens, valores, direitos e recursos econômicos da mulher.
Traduzindo o juridiquês: o patrimônio também pode ser usado como instrumento de controle.
Imagine uma mulher que trabalhou durante anos ao lado do marido, ajudou a construir o patrimônio da família e, quando decide se separar, escuta:
“Você não tem nada. Está tudo no meu nome.”
Ou aquela que precisa pedir dinheiro para abastecer o carro, comprar um medicamento ou fazer uma despesa pessoal, embora exista renda suficiente dentro de casa.
Há ainda situações em que documentos são escondidos, bens são destruídos, cartões são tomados, senhas são controladas ou recursos são retirados justamente para dificultar que a mulher deixe o relacionamento.
Perceba uma coisa importante: uma relação saudável pode ter organização financeira conjunta. O problema começa quando organização vira dominação.
Dinheiro representa muito mais do que consumo.
Dinheiro também representa escolha.
Quem tem alguma autonomia econômica pode escolher onde morar, como se deslocar, contratar ajuda e, em determinadas situações, simplesmente ir embora.
Por isso, retirar deliberadamente a autonomia patrimonial de uma mulher pode ser uma maneira extremamente eficiente de aprisioná-la sem colocar uma corrente em seu tornozelo.
E talvez aí esteja uma das faces mais silenciosas desse tipo de violência: durante muito tempo, a própria vítima pode não perceber que está sendo violentada.
Ela apenas acredita que “ele é controlador”.
Que “dinheiro sempre foi assunto dele”.
Que “casamento é assim mesmo”.
Nem sempre é.
É preciso olhar para cada história individualmente, porque nem todo conflito financeiro entre um casal configura violência patrimonial. Mas também não podemos normalizar comportamentos abusivos simplesmente porque eles acontecem dentro de casa.
A pergunta, então, talvez não seja apenas: quem administra o dinheiro da família?
A pergunta mais importante é: o dinheiro está sendo administrado ou está sendo usado para controlar alguém?
Se você se reconheceu em alguma dessas situações, não normalize o medo nem tome decisões jurídicas importantes apenas com informações das redes sociais. Procure orientação profissional, conheça seus direitos e entenda quais medidas são adequadas ao seu caso.
Às vezes, reconhecer a violência é o primeiro passo para recuperar algo que vale mais do que qualquer patrimônio: a liberdade de decidir a própria vida.

(*) Dra. Ana Carolina Consoni Chiareto e Dra. Rosangela CRISTINA Rossi, advogadas

Dra. Ana Carolina Consoni Chiareto e Dra. Rosangela Cristina Rossi (*)



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