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15/08/2026
Loucura/Poder (conto)
Os internos do hospício “Santa Dinfna” estavam em euforia pela chegada de novos colegas. Um deles, que achava ser Napoleão, dizia que executaria na guilhotina qualquer novato que se opusesse ao império francês, em especial, se filho da Inglaterra, Prússia ou Rússia. Havia um outro interno, sempre com papel e lápis na mão, que afirmava ser Shakespeare e gritava inspirado em Hamlet, “ser ou não ser, eis a questão”! Tinha um outro que empunhava uma espada de pau, que dizia ser Dom Quixote de la Mancha, e seria, inclusive, filho bastardo de Miguel de Cervantes. E assim seguia a rotina da peculiar casa. A instituição, como sempre, “estava no vermelho”, devendo até as cuecas. A admissão de novos “candidatos a louco” era feita pelo diretor do estabelecimento, que fazia a triagem para análise do grau da anomalia mental. Na mesa dele, empoeiradas e esquecidas, repousavam obras como O alienista, de Machado de Assis, e História da loucura, de Michel Foucault. A gradação da loucura no hospício era de 01 a 05; este (cinco) era o grau máximo, sendo a internação feita em salas com essa numeração. De acordo com esse parâmetro, adotava-se o tratamento respectivo ao paciente, a critério do diretor, referendado pelo psiquiatra da casa. O primeiro candidato a chegar ao hospício estava com o rosto e a cabeça inchados. Perguntou-lhe o diretor: qual a razão de estar aqui? Respondeu o novato: sou físico-quântico; eu descobri o Boson, não Riggs! Este é uma fraude! E continuou: o fato é que, contrariando a ciência e a lógica, fiz um risco no chão e tentei passar por baixo dele. De imediato, após a avaliação do diretor, foi ele encaminhado para a sala de número 1, pelo grau leve de sua loucura. Chegou o segundo candidato a louco, com braços e pernas quebrados, e o diretor fez a mesma pergunta, no que ele respondeu: senhor, estou aqui injustamente! Querem me trancafiar, como um pássaro na gaiola! Sou Ícaro, posso voar, tanto que o fiz atirando-me do terceiro andar do meu apartamento. O diretor, avaliando a situação dele, direcionou-o para a sala 2, de loucura em grau leve, em tese. Em seguida o diretor indagou ao terceiro recém-chegado, o qual vestia uma túnica de aparência secular: por que está aqui? Ele respondeu: sou Jesus, de Nazaré! Voltei para salvar a humanidade, mas acho que não tem mais jeito! O diretor, pensativo, encaminhou-o para a sala 3, de grau intermediário da loucura. Após, chegou o quarto candidato; era bem afeiçoado, de porte atlético privilegiado e usava uma veste de pele de leão, além de uma clava. O diretor o indagou: por que está aqui? Em resposta, ele disse: chamam-me de Héracles ou Hércules. Estou neste mundo para realizar os 12 trabalhos que me foram impostos, pois assassinei minha esposa e filhos num surto de loucura provocado pela deusa Hera. O diretor, então, o encaminhou para a sala 4, penúltima na gradação da loucura, próxima do nível máximo. No hospício só havia cinco vagas e se apresentou escoltado o último pretenso a louco. O diretor o indagou: por que está aqui? Respondeu o interlocutor: sou cientista e funcionário de uma gigante da tecnologia digital norte-americana do Vale do Silício. Descobri que a humanidade está em risco pela falta de controle sobre a Inteligência Artificial (IA). E continuou: eu pretendia alertar o mundo sobre esse grave risco, mas me afastaram do trabalho e, tempos depois, inexplicavelmente, fui demitido e interditado. O diretor do hospício, sem titubear, o internou na sala 5 (de grau máximo de loucura), por tempo indeterminado. Desde, então, o hospício não teve mais problema com dinheiro.
(*) Adelmo Pinho é promotor de Justiça do Tribunal do Júri em Araçatuba/SP. Este articulista escreve periodicamente para o jornal DIÁRIO DE PENÁPOLIS. E-mail: adelmopinho@terra.com.br
Adelmo Pinho (*)
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