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14/06/2026

ANPP: uma segunda chance que pouca gente conhece

Imagens/Arquivo Pessoal
Detalhes Notícia

Imagine receber uma ligação inesperada. Ou uma intimação. Ou descobrir que está sendo investigado por um fato que jamais imaginou que pudesse trazer consequências tão sérias para sua vida.
Nesse momento, o medo costuma chegar antes da informação.
Medo de ser preso. Medo de perder o emprego. Medo do julgamento da sociedade. Medo de carregar para sempre o peso de um processo criminal.
O que poucas pessoas sabem é que o Direito evoluiu. E, com ele, surgiram mecanismos capazes de solucionar determinados conflitos de forma mais inteligente, rápida e proporcional.
Um desses instrumentos é o chamado Acordo de Não Persecução Penal (ANPP).
Apesar do nome técnico, sua finalidade é simples: evitar que determinadas pessoas sejam submetidas a um processo criminal quando a própria lei entende que existe um caminho mais adequado para a responsabilização.
O ANPP foi introduzido pela Lei nº 13.964/2019, conhecida como Pacote Anticrime, e representa uma das maiores mudanças na Justiça Criminal brasileira das últimas décadas.
Na prática, ele permite que, em situações específicas, o investigado celebre um acordo com o Ministério Público, assumindo determinadas obrigações e evitando o ajuizamento de uma ação penal.
Mas é importante esclarecer algo desde já: ANPP não é sinônimo de impunidade.
Muito pelo contrário.
Para ter acesso ao benefício, a pessoa precisa preencher requisitos previstos em lei. O crime não pode ter sido cometido com violência ou grave ameaça, a pena mínima deve ser inferior a quatro anos e o investigado deve confessar formalmente a prática do fato investigado.
Além disso, o Ministério Público precisa entender que o acordo é suficiente para reprovar e prevenir aquela conduta.
Uma vez firmado o acordo, podem ser impostas condições como prestação de serviços à comunidade, pagamento de prestação pecuniária, reparação do dano causado ou outras medidas previstas em lei.
Cumpridas todas as obrigações, o caso é encerrado sem condenação criminal.
E é justamente nesse ponto que reside uma das maiores vantagens do instituto.
Muitas vezes, uma pessoa que nunca teve qualquer envolvimento com a Justiça acaba se vendo diante de uma investigação que pode comprometer toda a sua vida profissional, familiar e social.
Um processo criminal não afeta apenas documentos e prazos.
Afeta sonhos.
Afeta oportunidades.
Afeta relacionamentos.
Afeta a forma como alguém passa a enxergar o próprio futuro.
O ANPP surge como uma alternativa capaz de responsabilizar sem destruir.
De corrigir sem estigmatizar.
De permitir que o indivíduo reconheça o erro e siga em frente sem carregar as consequências de uma condenação criminal.
Também há benefícios para a própria sociedade.
Com menos processos envolvendo situações de menor gravidade, o Poder Judiciário consegue direcionar mais tempo e recursos para crimes efetivamente graves, aumentando a eficiência da prestação jurisdicional.
É uma solução que busca equilíbrio.
Nem excesso de punição.
Nem ausência de responsabilização.
Justiça.
Mas existe um detalhe que merece atenção.
Nem todo acordo é vantajoso.
Nem toda proposta deve ser aceita sem análise criteriosa.
Existem situações em que a defesa técnica identifica ilegalidades, ausência de provas ou estratégias mais favoráveis ao investigado.
Por isso, a orientação jurídica especializada é indispensável.
Aceitar ou não um ANPP é uma decisão que pode produzir reflexos por muitos anos e, justamente por isso, exige conhecimento técnico, experiência e análise individualizada do caso concreto.
O Direito Penal moderno não deve ser guiado apenas pelo desejo de punir.
Deve ser guiado pela busca da solução mais justa para cada situação.
E o Acordo de Não Persecução Penal representa exatamente essa mudança de perspectiva.
Mais do que um benefício legal, ele simboliza a compreensão de que a Justiça pode ser firme sem deixar de ser humana.
Porque, em muitos casos, a melhor resposta do Estado não é simplesmente condenar.
É permitir que a pessoa compreenda a gravidade de seus atos, assuma suas responsabilidades e tenha a oportunidade de reconstruir sua trajetória.
Afinal, a Justiça não deve existir apenas para olhar o passado.
Ela também deve ser capaz de construir futuros.

(*) Dra. Ana Carolina Consoni Chiareto e Dra. Rosangela Rossi, advogadas

Ana Carolina Consoni Chiareto e Rosangela Cristina Rossi (*)



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