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14/04/2026
Construção em alta, escassez de engenheiros: o descompasso que desafia o crescimento
A construção civil brasileira voltou a ganhar tração, impulsionada por investimentos em habitação e infraestrutura. Mas, ao mesmo tempo em que o setor amplia sua capacidade de geração de empregos, enfrenta dificuldades crescentes para formar e reter profissionais qualificados — sobretudo engenheiros — capazes de sustentar esse ciclo de expansão.
Dados do Novo Caged mostram que a construção civil voltou a superar a marca de três milhões de trabalhadores com carteira assinada em 2026, com geração de vagas distribuídas entre edificações, infraestrutura e serviços especializados. O desempenho acompanha a retomada de programas como o Minha Casa Minha Vida e a ampliação de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que elevam a necessidade de profissionais em diferentes níveis de qualificação.
O descompasso entre expansão da demanda e oferta de mão de obra já se impõe como um dos principais limites ao crescimento do setor. A dificuldade de contratação, já reconhecida por empresas e entidades, não decorre de um único fator. Há uma combinação de mudanças demográficas — com redução do contingente de jovens em idade ativa —, limitações na formação técnica e um modelo produtivo que ainda opera com baixa eficiência.
No campo da Engenharia, esse desajuste se torna mais evidente. A evasão nos cursos de graduação segue elevada, e o volume de profissionais formados não acompanha a complexidade crescente das obras. A construção civil deixou de ser apenas intensiva em mão de obra para exigir competências relacionadas à gestão, tecnologia e integração de processos, ampliando a necessidade de engenheiros com formação mais abrangente.
Ao mesmo tempo, a produtividade permanece como um entrave estrutural. A construção brasileira ainda opera com baixa padronização, uso limitado de dados e pouca incorporação de métodos industriais, o que restringe ganhos consistentes de eficiência. Em muitos casos, a gestão das obras permanece centrada em prazos e custos, sem indicadores estruturados de desempenho.
A adoção de tecnologias como modelagem da informação da construção (BIM), pré-fabricação e sistemas construtivos mais industrializados já aponta caminhos para essa transformação, mas ainda ocorre de forma desigual. Mais do que investimento, esse processo exige qualificação técnica e mudança de cultura na forma de planejar e executar obras.
Esse conjunto de fatores indica que a escassez de engenheiros não é apenas um problema de volume, mas de perfil. O mercado passa a demandar profissionais com visão sistêmica, domínio de ferramentas digitais e capacidade de integrar diferentes etapas do ciclo construtivo.
Diante desse cenário, o desafio deixa de ser apenas ampliar a formação de profissionais e passa a exigir o reposicionamento da Engenharia como eixo estratégico do desenvolvimento. Isso envolve aproximar o ensino das exigências atuais da construção, estimular a adoção de boas práticas de gestão e incorporar produtividade como condição para a sustentabilidade do crescimento.
Mais do que construir em maior escala, será necessário construir melhor — com planejamento, tecnologia e base técnica sólida. É nesse ponto que a Engenharia deixa de ser apenas suporte operacional e passa a ocupar papel central na capacidade de entrega.
O momento exige, portanto, uma atuação coordenada entre mercado, ensino e entidades técnicas. Sustentar o atual ciclo de alta demanda da construção civil dependerá da capacidade de alinhar expansão, produtividade e qualificação — uma agenda que passa, necessariamente, pela valorização da Engenharia como base técnica do desenvolvimento.
(*) Fernando Rosa é vice-presidente no exercício da Presidência do Crea-SP (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo), engenheiro civil e Secretário Licenciado de Obras de Penápolis, com mais de 20 anos de experiência no setor
Fernando Pedro Rosa (*)
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