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11/04/2026
A origem da moral
O que é moral e qual a sua origem? A moral é universal (aplicável a todos)? A moral é atemporal, ou seja, o que é moral numa época, necessariamente será em outra? A moral possui relação com “certo” e “errado”, ou é independente? Como se definir se uma conduta é moral ou imoral? Moral e ética são sinônimos? O tema em questão é instigante! Agir com moralidade, pelo senso comum, é fazer o que é correto. O humano desde o nascimento é um eterno devir (termo platônico) e adquire valores e princípios que se consolidam na idade adulta. Piaget desenvolveu etapas do desenvolvimento moral, desde o nascimento até a idade adulta. Nesta fase, segundo o pensador, é que o homem possui condições de discernir sobre aquilo que é ou não moral. Mas, será que a moral possui um critério estético (emoção ou reflexão sobre a beleza, ou pelo impacto visual e sensorial)? Pensemos no exemplo clássico dado por Nietzsche, da borboleta e da barata, sobre o qual faço as seguintes reflexões: por que se mata uma barata - sem titubear -, mas não uma borboleta? Esta é mais bonita do que aquela? Essa, então, é a razão? Se essa for a resposta, quem definiu que a borboleta é mais bela do que a barata? Baratas são fundamentais ao ecossistema. Mesmo assim, quem mata barata age corretamente, mas quem mata borboleta é cruel? Por quê? A resposta pode ser, em tese: formou-se um conceito positivo ou negativo com base no valor estético de um inseto; aprendeu-se (cultura) que a barata é um bicho nojento e a borboleta bela, como um quadro de Monet. Na vida em sociedade o Sapiens forma conceitos positivos ou negativos sobre coisas, pessoas e comportamentos, como no exemplo da barata e da borboleta. Pensemos: por que existem sociedades em que a poligamia é moral e em outras não? O divórcio foi considerado imoral pela comunidade ocidental, em especial pelo dogma da Igreja em não o aceitar. O divórcio hoje é permitido (pela lei) no Brasil e aceito pelo Clero. O que era imoral, portanto, tornou-se moral. Logo, a moral não é atemporal. Jesus nunca mataria hereges – ato imoral e desumano, mas seus “seguidores” o fizeram. Por essas e outras razões, Nietzsche foi severo crítico da moral cristã e de outras religiões, em especial na obra O Anticristo. Esse filósofo considerava a moral religiosa como de rebanho, cerceadora da genuína vontade. Segundo Nietzsche, a moral não pode ser objeto de controle ou de imposição (pela política, religiões etc.), cabendo ao indivíduo deliberar livremente sobre ela, afastando-se dogmas ou ideologias. Dostoiévski, em Os Irmãos Karamàzov, no capítulo “O grande inquisidor”, abordou também essa questão com maestria. Em Genealogia da moral, Nietzsche aprofundou o tema, focando no valor estético da moral, abordando temas como bom, mau, ruim, culpa etc. A moral tradicional, para Nietzsche, em especial a cristã, consistia num entrave à vida humana, tornando o homem fraco e submisso. O ideal, para Nietzsche, é a adoção de um estilo de vida firmado na vontade, na alegria e na autonomia da vontade do indivíduo. Pensando diferente, para o filósofo Schopenhauer, o fundamento da ética (ou moral) é a compaixão, como algo – sentimento - universal e concreto. O desejo, nesse cenário, tão explorado por Kant e Freud em suas obras, parece se contrapor à compaixão defendida por Schopenhauer (e Jesus Cristo). Outro tema sobre moral: a eutanásia não é permitida no Brasil, mas é autorizada em vários países do mundo, como Holanda, Bélgica etc. Defensores da eutanásia sustentam o direito de cessar o sofrimento do paciente terminal, enquanto opositores ao procedimento consideram a vida inviolável. A questão moral/ética desse procedimento é complexa e divide opiniões. Para uma conduta ser moral, ela deve possuir a finalidade de promover o bem do indivíduo ou da coletividade (bem comum). Moral, assim, é o agir costumeiro e altruísta, sob uma valoração (normatividade) social numa determinada época. Ética, por sua vez, do grego Ethos, significa caráter e jeito de ser. A ética, diferentemente da moral, é um princípio de natureza universal. “Não matar”, a exemplo, é um princípio universal ético, aplicável a qualquer sociedade, em qualquer tempo. Nem tudo que é moral, porém, será ético. Moral diz respeito aos costumes que se tornam normas a serem seguidas. O tema, assim, é interessante, complexo e controverso; não se teve a pretensão aqui de esgotá-lo.
(*) Adelmo Pinho é promotor de Justiça do Tribunal do Júri em Araçatuba/SP. Este articulista escreve periodicamente para o jornal DIÁRIO DE PENÁPOLIS. E-mail: adelmopinho@terra.com.br
Adelmo Pinho (*)
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