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ARTIGOS

21/02/2026

O idiota

Imagem/Arquivo Pessoal
Detalhes Notícia

Quer uma boa indicação para leitura? Leia O idiota, de Dostoiévski! A obra da literatura russa publicada pela Editora Martin Claret, com a tradução de José Geraldo Vieira, possui linguagem coloquial, fazendo com que a leitura seja agradável e fluída. São quase mil páginas de um romance surpreendente. Nele o autor revela as belezas e as mazelas da sociedade russa do século XIX. Dostoiévski pode ser considerado o principal representante do realismo (corrente literária) russo do século XIX, marcante pela exploração psicológica dos seus personagens e pela retratação da miséria social. Nesse romance ele aborda temas como fé, niilismo, ateísmo, bem, mal, amor, traição, ódio etc. O protagonista no romance é o príncipe Liév N. Míchkin, o último descendente de uma família nobre, mas pobre, que volta para a Rússia da Suíça, onde se tratou de uma doença por vários anos. A obra atrai e prende o leitor com vários personagens que se entrelaçam em tramas diversas. O espírito idealista do personagem Liév lembra Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, porém, sem espada, escudo ou cavalo. O príncipe Liév é considerado um idiota pela sociedade russa de São Petersburgo, por ser bom, verdadeiro e empático. No decorrer do romance, de pobre ele se torna rico, ao receber uma herança. E quando se tem dinheiro, “abutres aparecem”. A postura ética e sincera do príncipe Liév é notável, contagiando para, e com o bem, até os personagens malévolos, seus inimigos. A fé é objeto de discussão no romance: Liév tem viés cético e questionador do catolicismo, sendo mais adepto ao ateísmo (pg. 881). Dostoiévski, autor do romance, era cristão ortodoxo. O narrador do romance é onisciente. A filosofia tem altos momentos na obra, em especial nas páginas 896/897, onde existem falas do personagem protagonista, Liév, como: “...Ao meu ver, às vezes, ser absurdo não deixa de ser bom ... Para atingirmos a perfeição, devemos começar por uma grande ignorância bem difusa! Tudo que é compreendido depressa carece de compreensão eficiente ...”. A relação psicológica entre os personagens é extraordinária, fruto da genialidade do autor. Este costuma deixar aberto ao leitor para decidir sobre os temas polêmicos de suas obras. O idiota é um romance polifônico, ou seja, de pluralidades de vozes, com longos discursos dos personagens. Dostoiévski fala “dele mesmo” num trecho da obra (pg. 107), ao se referir a uma pessoa condenada à morte por fuzilamento, cuja pena foi convertida em degredo (exílio), pouco antes da sua execução (isso ocorreu com Dostoiévski, que foi condenado à morte em 1849, por criticar o governo czarista e a servidão na Rússia). O protagonista do romance, Liév, com o seu modo de agir e pensar, faz o leitor lembrar de Jesus Cristo, por ser essencialmente bom, grato e sincero, mesmo diante de ataques, conspirações e insultos dos inimigos. O final da trama é surpreendente, a exemplo de outros romances de Dostoiévski, como Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov. Se já vale a pena ler, pela leitura, em si, mais, ainda, tratando-se de um clássico literário. Fica, pois, a dica!

 

(*) Adelmo Pinho é promotor de Justiça do Tribunal do Júri em Araçatuba/SP. Este articulista escreve periodicamente para o jornal DIÁRIO DE PENÁPOLIS. E-mail: adelmopinho@terra.com.br

Adelmo Pinho (*)



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