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ARTIGOS

13/02/2026

Samba-enredo, o protagonista do asfalto

Chega o carnaval e, mais uma vez, teremos os desfiles das escolas e a apresentação de seus sambas-enredo. Haverá sempre quem repita: “Para mim, são todos iguais”. É o mesmo equívoco de quem diz que toda cerveja é igual, que pizza “é tudo a mesma coisa”, que café forte é sempre bom ou que futebol se resume a correr atrás da bola: quando falta convivência, repertório e amor, a complexidade some e o que é rico passa a parecer simples demais.
Enredo vem da ideia de trama, narrativa, fio condutor. No carnaval, cada escola escolhe um tema (histórico, cultural, social ou poético) e o samba-enredo é a música criada para contar essa história ao longo do desfile. Esse é o verdadeiro protagonista da composição musical.
Enquanto no cinema e no teatro nós, compositores de trilhas sonoras, servimos ao filme ou à peça, no carnaval acontece o inverso: todo o desfile é concebido para representar a música. Eu chamo essa virada de protagonismo. E ela não vale só na avenida: é um ativo raro no mundo dos negócios, da política e da comunicação.
Sim, existem diversos sambas, apesar da repetição dos temas. Cantaram muitas vezes os feitos lusitanos porque, nos primeiros desfiles de rua, as escolas de samba tinham como principais patrocinadores os comerciantes portugueses. Quando o desfile ainda dependia diretamente desse apoio, era natural os enredos despertarem a simpatia de quem viabilizava a festa. Observar o que será realizado na avenida deste ano é entender um pouco mais sobre o momento brasileiro. O carnaval aprendeu cedo uma lição básica da comunicação: quem viabiliza a narrativa influencia o canto.
Mesmo assim, o fator humano sobressai, revela que o samba é sustentado pela melodia do sambista, na batida pulsante estimulando o corpo, perdurando musicalidade nas memórias ao atravessar o tempo. Estamos prestes a presenciar a inevitável expressão sonora multicultural de compositores da geração Z até a velha guarda, podendo render surpresas.
Seja como for, sugiro pelo menos uma vez a experiência de assistir a uma manifestação musical, sendo o desfile no sambódromo o nosso ápice. O impacto de presenciar a entrada de uma grande escola na passarela é diferente daquilo que vemos na tela, assim como uma cachoeira ou um pôr do sol.
É uma experiência de estar junto do samba. Junto fisicamente, emocionalmente, intelectualmente, espiritualmente. Parte dessa experiência pode ser vivida também nos ensaios dessas escolas. Não é fácil fazer acontecer a magia apresentada nos desfiles. Uma demonstração do que só o povo brasileiro é capaz de fazer, por meio da cultura e sua capacidade de organização.
Quer ir às lágrimas com o samba? Vá a um ensaio na Unidos da Vila Isabel, uma das escolas mais tradicionais do Rio de Janeiro. Verá os moradores de uma área com forte presença cultural e histórica, o Morro do Macaco, tomarem as ruas e cantarem o samba a toda voz. Entenderá do que é feito um desfile e compreenderá através do coração e não da cabeça que os sambas-enredo são inigualáveis. Todas as escolas podem oferecer essa experiência, escolha pelo bairro, pelas cores ou por pura simpatia, ou faça como eu: vá a todas que conseguir.
Antigamente as escolas guardavam até o último dia seus segredos, os artistas e artesãos faziam os carros alegóricos em estrutura de madeira e ferro improvisado, escondiam os carros embaixo das pontes para proteger das chuvas. Certa vez, quando trabalhava no lançamento em CD dos cem anos de “Cartola Para Todos”, indicado ao Grammy Latino, visitei a Cidade do Samba onde hoje as escolas centralizaram seus trabalhos. Seu Antônio guiava pelos bastidores das oficinas e dizia, desencantado: “Imagine só, meu filho, hoje todo mundo vê os carros antes do desfile...”.
Sim, tudo se profissionalizou. Este ano poderemos ter sambas-enredo compostos com a ajuda da inteligência artificial. Já pensou nisso?
O que há de bonito continua intocado: o sambista permanece assim como o samba-enredo. Vem aí mais um ano de samba.
“Veja essa maravilha de cenário” onde “o povo canta em forma de oração”, um grito de “Liberdade, liberdade!” entoando que, apesar dos pesares, “É hoje o dia da alegria” e que “explode o coração na maior felicidade”. “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”.

(*) Álvaro Fernando, formado em Direito pela USP, é músico, escritor, palestrante e autor de trilhas de comerciais premiados em Cannes, Londres e Nova York

Álvaro Fernando (*)



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