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23/05/2020
Existe ética na política?
Se forem confiáveis as pesquisas, dir-se-á que não. A política partidária, qual a exercida recentemente no Brasil, se contaminou e hoje colhe a maléfica resposta que o eleitorado lhe dá. Generaliza, como se não houvesse mais um só político probo, honesto, sério, merecedor de respeito e de credibilidade.
Nem sempre foi assim. O Brasil já teve homens de elevada estatura moral a gerir a coisa pública. Falta, isto sim, é reverenciá-los como merecem. Típico de um país pouco escolarizado, em que enorme parcela da população mal sabe garatujar seu nome, é colocar no arquivo dos esquecidos os seus vates.
Cumpre a quem ama o Brasil e quer que ele seja recolocado nos trilhos do verdadeiro progresso – um desenvolvimento sustentável baseado no respeito ao ser humano e à natureza – revolver páginas históricas e mostrar a uma juventude que, com razão, está desalentada, motivo para revigoramento da esperança.
Um episódio que fornece exemplo de ética é o da lealdade do Presidente do Estado de São Paulo – assim se chamavam os Governadores na Primeira República – aos valores republicanos.
O feitio democrático-republicano foi um fator decisivo para a proclamação da República em 1889. Sem fazer juízo se isso foi bom ou se teria sido melhor preservar o Império, já que Pedro II era um estadista que não encontrou sucessor à altura, a verdade é que os jovens do PRP acreditavam no regime em que os mandatos são transitórios e conferidos pelo povo.
Assim, quando em 1893 irrompeu a rebelião da esquadra, contra o mandonismo de Floriano Peixoto, alarmaram-se os republicanos de São Paulo. O golpe inicial fora do almirante Custódio de Melo, com adesão imediata de Saldanha da Gama.
Foi quando Bernardino de Campos, à frente do governo bandeirante, enviou ao Presidente da República um telegrama com o teor que segue: “Navios Revoltados não podem impor sua vontade à nação pelas armas. É inaceitável o uso da força para resolver assunto político, quando funcionam livremente os poderes legais. Dou e darei todo apoio à vossa autoridade de Presidente da República porque sois o poder legítimo. Vosso civismo amparará as instituições no lance aflitivo a que são levadas. Confiai em minha lealdade. Bernardino de Campos, Presidente de São Paulo”.
Há similares recentes de tal fidelidade à causa? Se houver, aceitarei elenca-los para mostrar que a ética na política sobreviveu aos sobressaltos e ainda nutre as pessoas de bem que não se assustam diante do melancólico panorama que se descortina de alguns espaços dos intestinos da má política.
(*) José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, Docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020
José Nalini (*)
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